A crise na rede pública de saúde de Bauru atingiu um patamar de indignação sem precedentes. O cruzamento de dados oficiais de regulação de leitos e o registro de óbitos nas UPAs e no Pronto-Socorro Central expõem um quadro estarrecedor de desamparo, em que a população idosa é a principal vítima. Para agravar o cenário, declarações polêmicas do recém-empossado secretário municipal de Saúde, Dr. Raul Gonçalves Paula, somadas a indícios estatísticos de subnotificação nos dados de outubro, provocam forte reação de familiares e entidades de classe.
O Descaso com os Idosos: Dias Confinados em Macas de Pronto Atendimento
Neste momento, 63 pacientes aguardam por transferência para leitos hospitalares de retaguarda. Mais da metade da fila — 32 pessoas (50,8%) — é composta por idosos com 60 anos ou mais.Embora o tempo médio de espera no sistema seja de 76,9 horas, a realidade nos corredores revela quadros clínicos graves retidos por mais de uma semana em leitos improvisados e sem estrutura hospitalar de alta complexidade:
INS (86 anos): Internada no PSC com solicitação de Clínica Médica, a idosa permanece há 184 horas (mais de 7 dias) aguardando a liberação de um leito.
CRS (76 anos): Na UPA Bela Vista, o paciente contabiliza 189 horas de espera por uma vaga de internação.
IBS (68 anos): Confinada na UPA Geisel, a paciente aguarda há 243 horas (mais de 10 dias) por avaliação e transferência para Angiologia e Cirurgia Vascular.
Casos Críticos Resolvidos com Atraso: Idosos como MGM (74 anos) e CPA (71 anos) enfrentaram jornadas de espera de 290 horas (12 dias) e 267 horas (11 dias) nas UPAs Bela Vista e Ipiranga, respectivamente, até que a vaga no Hospital Estadual fosse finalmente liberada.
Especialistas alertam que a permanência prolongada de idosos em unidades de pronto atendimento eleva consideravelmente o risco de complicações clínicas e infecções, transformando a espera no fator determinante para o agravamento de quadros tratáveis.
A Suspeita de Subnotificação nos Dados de Outubro
O histórico acumulado entre agosto e o início de novembro de 2026 contabiliza 46 óbitos de pacientes que aguardavam a consolidação do fluxo de internação. No entanto, a análise temporal das notificações acendeu alerta no meio técnico pela descontinuidade abrupta dos indicadores:
Agosto de 2026: 20 óbitos registrados.
Setembro de 2026: 19 óbitos registrados.
Outubro de 2026: 6 óbitos registrados.
Novembro de 2026 (até 02/11): 1 óbito registrado.
A queda repentina de 68,4% nos registros entre setembro e outubro ocorre em um período em que a ocupação das UPAs e a fila do PSC mantiveram patamares críticos. A divergência estatística levanta a forte suspeita de subnotificação nos dados municipais, apontando para possíveis atrasos no processamento das fichas burocráticas ou represamento de informações oficiais antes do envio aos órgãos de transparência.
"As Pessoas Morrem": Declaração do Secretário Dr. RaulProvoca Indignação
A indignação da população aumentou após declarações do novo secretário de Saúde de Bauru, o médico Dr. Raul Gonçalves Paula. Ao ser questionado em entrevista sobre as mortes frequentes na fila por internação e o sofrimento das famílias que aguardam leitos nas UPAs, a resposta simplista dada pelo gestor, resumindo o cenário à premissa de que "as pessoas morrem", causou forte repercussão negativa e foi tirada do ar.
Para familiares de pacientes que viram parentes perderem a vida após dias de espera em macas de UPA, a fala reflete frieza institucional e tentativa de naturalizar o colapso do sistema de regulação. A declaração foi recebida como uma afronta por entidades que cobram responsabilidade da administração municipal e do Estado na garantia do direito constitucional à saúde.
Cobrança por Soluções Emergenciais
Os dados demonstram que a maioria dos óbitos da rede concentra-se em pacientes idosos — 73,9% das vítimas tinham 60 anos ou mais — com solicitações pendentes principalmente para Clínica Médica (45,7%) e UTI (41,3%).Diante do cenário, o FMC Comunica reforça a cobrança por medidas imediatas da Secretaria Municipal de Saúde e do Governo do Estado. A população bauruense exige a auditoria dos dados de outubro para esclarecer a real extensão das notificações, a ampliação imediata da oferta de leitos de retaguarda e um tratamento humanizado que respeite a vida e a dignidade de quem depende do SUS.