Um contrato que deveria simbolizar a modernização de Bauru, no interior de São Paulo, revelou-se, na verdade, o epicentro de uma das engrenagens de corrupção mais sofisticadas já mapeadas na administração pública municipal. Em setembro de 2026, as operações "Cavalo de Troia" e "Mobius", deflagradas pelo GAECO (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), expuseram um esquema parasitário que transcendia a mera troca de favores.
O prêmio? A Parceria Público-Privada (PPP) para a gestão do lixo urbano. O valor? R$ 5,2 bilhões ao longo de 30 anos. A metodologia? Infiltração estratégica e a chamada "lavagem técnica" de decisões ilícitas.
O Paradoxo do Lixo
A arquitetura financeira da fraude era perversa: o município passaria a pagar o valor integral estimado da tarifa (cerca de R$ 10 milhões mensais) desde o primeiro dia de contrato. Contudo, a concessionária estaria obrigada a tratar apenas 40% do lixo durante toda a concessão de 30 anos. Os cidadãos pagariam um preço "premium" de primeiro mundo, enquanto 60% do seu lixo continuaria a ser simplesmente enterrado.
MAPEANDO A TEIA: OS ATORES DO ESQUEMA
Para que o direcionamento do edital à gigante Estre Ambiental funcionasse, a organização criminosa dividiu-se em três frentes de atuação altamente coordenadas: o Núcleo Interno (infiltrados na Prefeitura), o Núcleo Empresarial (os beneficiários e os operadores de coerção) e o Validador Técnico (o verniz de legalidade).
Mário Luiz Silvério
O Validador Técnico (FIPE) - FORAGIDOConsultor e coordenador técnico pela FIPE (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas), além de diretor-executivo da Companhia Paulista de Desenvolvimento (CPD). Seu papel era fundamental: receber o edital viciado e aprová-lo com o "selo de qualidade" da FIPE. Com prisão preventiva decretada, evadiu-se das autoridades e encontra-se foragido.
O Núcleo Político-Administrativo
A Infiltração na PrefeituraVitor Costa (Sec. de Negócios Jurídicos) presidia a Comissão de PPPs, agilizando aprovações (flagrado com R$ 240 mil em espécie). Cilene Bordezan (Ex-Sec. de Meio Ambiente) estruturou os estudos técnicos viciados. Sara Jesus (Ex-sec. adjunta) mantinha vínculo prévio e direto com a Estre Ambiental.
O Núcleo Empresarial
Os Beneficiários e a CoerçãoDe um lado, o topo da hierarquia da Estre Ambiental: Hamilton Libório Agle (CEO) e Talita Chieregatti (funcionária), que ditavam as regras nos bastidores. De outro, a força bruta: Gisele Moretti (presidente da Ascam) e seu marido, que ameaçavam e extorquiam catadores de materiais recicláveis e opositores da licitação.
Suéllen Rosim (Prefeita)
A Chefe do Executivo - Alvo de Comissão ProcessanteAcusada de "cegueira deliberada". Omitiu o acesso a documentos cruciais à Câmara Municipal para aprovar a concessão do lixo, anulou salvaguardas internas e ignorou alertas iniciais do Tribunal de Contas do Estado (TCE-SP). Atualmente, enfrenta um processo de Comissão Processante na Câmara (aprovado por 19 votos a 1).
O MODUS OPERANDI: O "ENVELOPE FECHADO"
A fraude não foi um arrombamento aos cofres públicos; foi uma operação cirúrgica. A "Lavagem Técnica" (ou compliance reverso) ocorreu através da imposição do sistema de "envelope fechado" nas regras do edital.
Cilene Bordezan desenhou cláusulas técnicas altamente restritivas e subjetivas. Mário Silvério, pela FIPE, endossou o estudo. Este modelo permitiria a uma banca examinadora conceder notas discricionárias para eliminar qualquer concorrente que apresentasse preço menor, blindando a vitória da Estre Ambiental, que já detinha contratos menores com o município.
O MONOPÓLIO DA CONSULTORIA
A atuação da FIPE em Bauru não se limitou ao lixo. Através de sucessivas dispensas de licitação (amparadas na lei), a fundação tomou conta dos projetos mais estruturantes da cidade, gerando um assustador conflito de interesses sistêmico.
| Projeto / Objeto | Valor do Contrato (FIPE) | Impacto na Teia Investigativa |
|---|---|---|
| Revisão do Plano Diretor | R$ 2.385.000,00 | Coordenado por Mário Silvério. A mesma equipe que ditou a expansão urbana de Bauru desenhava os contratos para executar a infraestrutura resultante. |
| PPP do Lixo (Resíduos) | R$ 720.000,00 | Estudos para o contrato de R$ 5,2 bilhões. Centro nervoso da Operação Cavalo de Troia. Suspenso judicialmente. |
| PPP de Esgoto e Drenagem | R$ 1.190.000,00 | Coordenada pelo mesmo técnico (Silvério) usando idêntica metodologia restritiva. Alvo de pedido formal de ampliação de investigação pelo GAECO. |
A EXPANSÃO: UMA "FRANQUIA DA FRAUDE"
O detalhe mais alarmante revelado pelo GAECO é que Bauru era apenas o laboratório. Escutas telefônicas revelaram que o grupo organizava um cartel interestadual de manipulação de concessões ambientais. O autodenominado "modelo Bauru" estava prestes a ser exportado.
São José dos Campos (SP): Interceptações de agosto de 2026 detalham a tentativa de aplicar a "modelagem de Bauru" em um mega-projeto ambiental estimado em absurdos R$ 12 bilhões.
Outros Alvos: Investigações em fase embrionária identificaram a expansão das garras do grupo para cidades como Ribeirão Preto (SP) e Curitiba (PR), onde os operadores já avaliavam a viabilidade de "acelerar" planos de concessão em andamento. O grupo chegou a monitorar conselheiros do TCE-SP para buscar vulnerabilidades que pudessem favorecê-los.
DESFECHO INSTITUCIONAL
A resposta do Poder Judiciário foi contundente. Em meados de setembro de 2026, o juiz Josias Martins de Almeida Junior determinou a suspensão imediata da licitação de resíduos sólidos e do contrato de consultoria com a FIPE. Cinco envolvidos encontram-se com prisão preventiva decretada, enquanto as polícias caçam o foragido Mário Silvério.
Na prefeitura, o cenário é de terra arrasada. O poder legislativo avança com a Comissão Processante que muito provavelmente resultará na cassação do mandato da prefeita Suéllen Rosim, marcando o fim abrupto de uma gestão que apostou na privatização da infraestrutura, mas terminou refém de um sindicato criminoso corporativo.





